
Para uma região que vive na dependência quase exclusiva — e, dir-se-ia, já patológica — da indústria turística, a cultura apenas interessa como factor de diferenciação; aquilo que distingue um destino turístico de outro. Esta perspectiva está tão enraizada nos ‘responsáveis políticos’, que a noção de destino, enquanto lugar onde, por exemplo, se passam uns dias de férias, se confunde com a ideia de destino enquanto algo irrevogável e predeterminado por instâncias superiores; neste caso, fatal futuro dos algarvios e do Algarve.
Esta confusão ‘ideológica’, que durante anos foi medrando e se acomoda nas mentes, sobretudo na dos obcecados por uma visão economicista de desenvolvimento a curto prazo (em que as receitas do turismo não são investidas na diversificação da actividade económica e, muito menos, na qualificação da população local — deixando a região extraordinariamente vulnerável a uma crise no sector), configura uma situação de fechamento que determina a impossibilidade de se tirar partido do nosso vasto potencial ainda inexplorado.
De facto, a cultura é apreciada, quase exclusivamente, na sua dimensão popular/folclórica, complemento balnear e, se não reduzida à condição de espectáculo, é entendida como coisa estática e/ou de museu. É uma visão “turística” de cultura, a que contamina os responsáveis desta área. Mesmo as tendências mais recentes para um certo “turismo cultural”, apontando para a recuperação e preservação do património existente, englobando o monumento e a sua envolvente paisagística, rural ou urbana e, claro está, a “identidade das gentes”, vão no sentido de tudo manter ad aeterno no seu “contexto original”. É uma visão que, se implementada sem mais, tenderá a transformar o Algarve num parque temático e, os algarvios, numa espécie de indígenas de costumes peculiares (mas brandos, claro), encerrados na sua reserva, de preferência ‘como sempre foram’, servindo simpaticamente visitantes como criadagem em hotéis e restaurantes. Na melhor das hipóteses, vivendo disso, coçando ao sol sua barriga.
Contudo, esta perspectiva garridamente monocromática da cultura, é atenuada pela intuição da sua insuficiência como atracção de um turismo cosmopolita, mais culto e endinheirado, já fatigado do subdesenvolvimento e das tragédias terceiro-mundistas, ansiando por segurança, conforto e sofisticação. É aqui, que os responsáveis atentam na existência de uma outra cultura — a artística. No entanto, tão atavicamente submersos no seu universo estritamente pop, metem os pés pela mãos, considerando viável instrumentalizar a criação artística, direccionando-a para fins de animação, sem se aperceberem da natureza oposta dos conceitos. É esta miopia que, não distinguindo arte de entretenimento ou criação de mera exibição, impede um verdadeiro desenvolvimento cultural — no seu sentido mais exigente —, e, consequentemente, desvaloriza o Algarve enquanto sério destino turístico.
Bem podem argumentar com as iniciativas no âmbito da música clássica, ou com a incongruente estratégia dos “eventos grande impacto”. Concentrados no Verão e ineficazes no combate à sazonalidade, são pontuais e de curto alcance; sendo exclusivamente dedicados a turistas, afastam os algarvios; importando obras que dizem atrair visitantes, trazem o que estes já fruíram ou podem fruir nos seus locais de origem. De alguns diz-se mesmo que são ‘artísticos’ mas, na sua maioria, são meras produções de entretenimento de massas; a sua eficácia está na preciosa natureza que ocultam: são eventos instrumentais ao serviço da promoção de políticos e satisfação das clientelas respectivas.
Ainda assim, a moda do “grande impacto”, lançada pelos estrategas do marketing e aplicada com a esperteza dos dirigentes locais, não tem dado bons resultados. Veja-se a utilização de nomes carismáticos (como Picasso, James Turrell ou Bill Viola), na promoção de exposições em que, dos autores evocados, apenas se via uma ou outra obra secundária entre as muitas em exibição, levando os visitantes a sentirem-se defraudados e com pouca vontade de se arriscarem a nova desilusão.
Trata-se de uma estratégia que tende a privilegiar a artificialidade e o efeito de estrondo ou chamariz e que tem levado à descaracterização cultural do Algarve. Em nome do desenvolvimento, não apenas apoia uma indústria que tem trazido a delapidação do património natural, monumental e urbano, como, em vez de promover a sua obediência a um planeamento rigoroso, e de o acompanhar por técnicos incorruptos, a deixa intervir no destino dos assuntos culturais. Assim como não nos pareceria ser sinal de exigência ver um artista plástico, um músico ou actor a ditar o rumo do turismo, também não parece nada saudável que seja a hotelaria a determinar qual o destino da produção cultural/artística. De facto, talvez ainda não saibam, mas o Algarve já está farto deste culturismo.
Pela nossa parte, consideramos do mais elementar bom senso, mesmo no interesse da sustentabilidade da indústria, um investimento planeado, consistente, de médio/longo prazo, no apoio às instituições culturais algarvias, sobretudo aos autores e ao associativismo local, i.e., a quem produz cultura. Haveria então, por uma fracção do custo actual e ao longo de todo o ano, algo genuíno e realmente interessante para oferecer a quem nos visitasse, e também de interesse para a população local. Desta forma, tanto a ERTAlgarve - Entidade Regional de Turismo do Algarve, como as câmaras municipais, teriam em abundância o material necessário à promoção da região, mesmo para lá das suas fronteiras, e até para tirarem os justos dividendos duma política inteligente em benefício de toda a comunidade.
No entanto, embora certos do benefício da nossa perspectiva, temos consciência das dificuldades inerentes a uma alteração do medíocre destino a que as actuais visões e práticas políticas têm votado o Algarve — basta para isso atentar no fenómeno farense.
Com efeito, durante a época natalícia, enquanto em Loulé se distribuíam cabazes de natal às famílias mais carenciadas, em Faro, o nosso presidente dava um show de auto-promoção. Este esplêndido autarca, não tendo pão para necessitados, proporcionou aos farenses, entre várias outras onerosas iniciativas, patinagem sobre gelo (costume marcadamente algarvio, desde tempos imemoriais!) a 2,5 € cada meia hora, sendo que, dessa quantia, num magistral golpe promocional, destinou 50 cêntimos de generosidade à caridade. Animação e entretenimento; o desenvolvimento da cultura vai patinando sem progredir. Naturalmente, do mesmo não se pode queixar este executivo camarário: o claro sucesso da iniciativa — bem patente nas gentes que durante umas semanas lá escorregou anestesiada dos seus problemas reais — não pode deixar de impressionar. Somos inexoravelmente compelidos a apreciar espantados o extraordinário talento do autarca para a “patinagem artística”, a solo ou em pares, com o seu vice da cultura.
Da forma audaz como se lança em frente, equilibrado nas finas lâminas da demagogia e do populismo, deslizando a toda a brida sobre o perigoso gelo do desperdício dos fundos municipais, ou da agilidade com que aplica à cultura do concelho todo um rico repertório de acrobacias, retemos o olhar mesmerizado na votação eleitoral. Eis aí as nauseantes “piruetas” com que defrauda a cultura farense — como quando se diz interessado na opinião dos agentes mais activos, convidando-os para workshops com o propósito de compor plateias, para decidir depois, no secretismo dos gabinetes, o destino a dar aos milhões do QREN. Eis aí, também, os “saltos” do emérito patinador, elementos de grande efeito em qualquer exibição; sobretudo, os “mortais à retaguarda” com que provoca o retrocesso cultural do Concelho ¬— como quando, faltando aos compromissos assumidos, deixa durante mais de um ano os agentes culturais à espera das exactas verbas que desvia para eventos de auto-promoção; ou ainda os tão famosos “saltos lançados”, como recentemente, com o anúncio dum “Museu Municipal de Arte Contemporânea” — curiosamente apenas pronto lá para após as eleições. Enfim, todo um astucioso “trabalho de pés” com que, durante um mandato, sem perder o equilíbrio, tentou iludir agentes culturais e eleitores, com promessas que não tinha, nem nunca teve, qualquer intenção de vir a cumprir.
Contudo, se olharmos com atenção, toda esta “patinagem” é justificada, de uma forma ou doutra, com a imperiosa necessidade de tornar a nossa cidade mais divertida e atractiva, mais “turística” e diferenciada. Os farenses, esses, umas vezes tratados como turistas em sua própria casa, outras, como a tal espécie de índios conservados em “reserva temática”, distraídos com tanto entretenimento — que pagam com o próprio futuro —, são condenados ao triste destino do subdesenvolvimento, não apenas cultural, mas também económico. É caso para nos interrogarmos se o factor de diferenciação que verdadeiramente nos penaliza perante o resto da Europa, não consiste afinal, na pobreza cultural dos políticos que temos e mantemos (*).
Vasco Vidigal
& Artadentro Associação
(*)
Este pequeno texto não pretende ser exaustivo na apreciação dos efeitos nefastos das já tradicionais políticas “turísticas” sobre o desenvolvimento cultural algarvio. Destina-se, apenas, a suscitar e a estimular a reflexão sobre o tema àqueles que por ele se possam interessar. Deixamos aqui patentes, também, as linhas gerais daquilo que, no nosso entender, deveria ser uma relação saudável, e mutuamente benéfica, entre o turismo e a actividade cultural/artística da região. Quanto ao ‘fenómeno’ cultural farense referido, ele sublinha a pertinência do nosso projecto artístico Incito, projecto que tem a C. M. de Faro como espécime preciosíssimo para uma contínua e rigorosa observação laboratorial. Qualquer informação que, eventualmente, permita corrigir factos referidos, ou dar deles outra interpretação, será sempre bem vinda.