INCITO

Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Incito



Incito [instigar, estimular, excitar, provocar, desafiar, impelir a, etc., do verbo incitar - do Lat. Incitare], dá o título a uma proposta artística que aborda a conjuntura em que se desenvolve a actividade cultural — temática recorrente na História da Arte —, especificamente no Concelho de Faro, aqui tomado como privilegiado campo de investigação e intervenção.


Enquanto work in progress, Incito está aberto à participação dos que se preocupam com o tema — “gente de cultura” ou simples cidadãos, que queiram contribuir com a sua crítica, documentos, obras ou qualquer outro material considerado pertinente. Trata-se de um projecto que (dada a complexidade e riqueza do tema) assume a forma de campanha multimédia, usando todas as possibilidades à disposição da criação plástica contemporânea, pensada no sentido de promover a discussão pública sobre os constrangimentos que afectam a produção cultural farense e algarvia, apontando problemas e defendendo activamente vias apropriadas à sua solução. Neste âmbito, serão apresentadas obras que propõem à discussão pública as diversas facetas desta ‘problemática’; outras, de carácter documental, são constituídas por todo o material previamente recolhido e pelo que tenha surgido como consequência das acções desenvolvidas.

Esta exposição, um projecto Artadentro, com a participação de Ana André (Faro, 1969), Manuel Rodrigues (Lisboa, 1959), Teresa Ramos (Tavira, 1953) e Vasco Vidigal (Lisboa, 1958), vem agora mostrar publicamente, algum do material criado/recolhido/produzido desde o início de Incito (Maio de 2008), sendo certo que o assunto se encontra perto de não estar nada esgotado.

Artadentro,

Vasco Vidigal & restantes


Terça-feira, 16 de Março de 2010

Faro não é Faro!



Tinha a Artadentro pensado suspender o seu projecto artístico Incito durante a época eleitoral — por achar que, enquanto agentes culturais independentes (embora a actividade artística tenha sempre, nalgum grau, uma certa dimensão política), marcaríamos assim de equidistância a nossa relação com a disputa partidária —, quando a ofensiva demagógica do nosso Apolinário, ao instrumentalizar a cultura e seus agentes, usurpando as suas realizações enquanto os discrimina com fins eleitoralistas, vem legitimar esta nova peça como acrescento ao acervo Incito.

Segundo o autarca, o cabal cumprimento das suas anteriores promessas foi inviabilizado pela ‘desarrumação’ com que na autarquia deparou ao entrar a funções. Portanto, este político, horrorizado por tamanha desigiene, deu mostras de coragem, só comparável à de Hércules diante os estábulos do rei Áugias, tendo passado todo um mandato de touca e avental, a arrastar mobiliário, varreu e encerou, a desinfectar a suja herança. Claro está, na azáfama, para lá da costumeira satisfação de clientelas, os compromissos assumidos com os farenses, nomeadamente a propagandeada aposta cultural, nunca os honrou.

Com efeito, essa suposta ‘aposta’, parece ter ficado resolvida com o convite ao pintor Manuel Baptista para reassumir a programação da Galeria Municipal Trem, motivada não por genuíno interesse na Arte Contemporânea e seus agentes, mas pelo aproveitamento do prestígio do carismático artista farense — certamente crendo ter obtido junto da massa eleitoral, o álibi perfeito para as sequentes tropelias em prejuízo do real desenvolvimento cultural e artístico do Concelho.

De facto, em matéria de cultura, além da traição a Faro e às suas instituições (pelo faltoso apoio prometido; pela conivência com a desconsideração Allgarvia e com a negligência do Ministério da Cultura; pelo sorvedouro de recursos em que se tornou o Teatro das Figuras; pela decadência do Teatro Lethes; pelas perturbações na Orquestra do Algarve; pelas feiras e animações, ou pelos tristes casos de ‘arte pública’, assunto a pedir análise própria), só recordamos dois marcos, ambos relacionados com o património monumental. Um, na tão divulgada reabilitação do Palácio de Estói, várias vezes re-inaugurado, que acabou entregue às Pousadas de Portugal, fazendo daquela peça única do nosso património mais outro hotel reservado a endinheirados — inviabilizando a sua fruição à esmagadora maioria dos munícipes! —, num negócio onde o que pertence a Faro é ‘emprestado’ a uma empresa (privada a 49%), para que renda por muitos e bons anos; o segundo caso marcante, esteve na complacência com que o edil assistiu, mesmo defronte da sua janela camarária, ao alindamento exterior da Sé Catedral de Faro, o mais precioso monumento histórico farense — trabalho feito por serventes, sem projecto, à revelia de qualquer tipo de autorização/fiscalização, da C.M.F. ou do Ministério da Cultura/IPPAR-Direcção Regional de Faro.

Claro está, para o empreendedor Apolinário, a cultura apenas interessa enquanto pretexto fácil e prático, para desvio dos dinheiros municipais, nas barbas dos farenses, em proveito de interesses político-pessoais. É o que se passa na atribuição de apoios financeiros aos folks ‘bem comportados’, enquanto os agentes culturais que se manifestam publicamente duma forma crítica fundamentada, vêm o prometido negado na tentativa de abafar a sua existência — mesquinhez exuberante que revela grande falta de cultura democrática, contradizendo descaradamente o alardeado amor pela liberdade. Mas também o pretexto cultural foi usado em benefício de negócios privados: como se verificou com o Second Life; ou como se poderá vir a verificar, caso haja oportunidade, na ‘operação cultural’ de 20.000.000,00 de euros municipais, com que promete acudir ao ruinoso negócio privado do Centro Comercial Atrium; pasmosa promessa eleitoral que nos garante que a câmara, já transvestida em produtora/promotora ‘empresa’ de feiras e romarias, irá investir os nossos dinheiros no mercado imobiliário e na exploração de centros comerciais!!!

Não obstante, se a mediocridade da acção política deste homem se restringisse ao sector cultural — embora já suficiente e flagrante sintoma da falta de qualidade imprescindível à presidência da capital algarvia —, menos mal iria Faro. Mas, o caso é que o seu higiénico executivo afectou a generalidade dos sectores, acentuando o retrocesso do Concelho. Aliás, a triste realidade é reconhecida pelo edil, a avaliar pela desorientação que se lê no recurso a todos os truques, desesperado por, mais uma vez, enganar uns eleitores: ele é o look Obama — anulação de bigode, bronze em mangas de camisa, dentito evidente e pose a três quartos de braço cruzado; ele é o discurso estridente e agressivo no debate — quando não há obra nem ideias, ataque-se o opositor sem o deixar falar; são os cartazes prometendo obras cujo valor total daria para comprar meio Algarve e invadir o restante; ou, por exemplo, os enigmáticos slogans, verdadeiros case study de vago vácuo mental e esperteza caloira.

A este respeito, realçamos o insipidíssimo “Fazemos” que, associado a imagens de maquetas, não é ‘fizemos’ nem ‘faremos’, mas uma espécie de tóxica nuvem equívoca com que se pretende apolinar o farense mais descuidado. Contudo, para terminar com a demonstração definitiva da razoabilidade destas apreciações, reservámos o espectacular, em redundante, “Faro é Faro”, orgulhosamente subscrito pelo edílico Apolinário — e merecedor da classe dos mais deselevados lemas eleitorais de sempre. De semelhante frase poder-se-ia pensar ser veículo de uma hipnotética mensagem subliminar, porém não se vê qual, a menos que só para iniciados. Pode tratar-se de massajar o orgulho farense, levando votante a lamentar comovido, quiçá, o candidato olhanense; ou, então, esticando a hermenêutica, talvez apenas pregue a desutópica convicção de tudo ter sido feito e/ou não haver nada a fazer pela capital do Algarve. Entretanto, o eleitor perplexo na matuta, tentando arrombar tal enigma, ouve atónito o candidato Apolinário a fasciná-lo dentro de um ecrã televisivo com a singela chave na boca: “Faro é Faro, porque não é Tavira, nem Olhão, nem Loulé...” — e, não fora o corte providencial, logo com salto para outro tema, na sua língua designaria, uma a uma, qualquer cidade que não fosse Faro (pelo menos, ainda!). Enfim, ao amainar a gargalhada fatal, o farense aliviado e esclarecido, maxilares dolorosos e em caimbras estomacais, vislumbra que a reeleição deste auto-autarca lhe garante anedota à grande, mas não o futuro que deseja para Faro.

De facto, se tudo isto traduz um sonho que o candidato possa querer ver realizado, então será melhor avisá-lo de que, para nós, este Faro não é Faro. (*)

Vasco Vidigal
& Artadentro Associação

(*) A Artadentro, associação cultural independente, s.f.l., que em 6 anos de intensa e contínua actividade nunca beneficiou de um cêntimo de financiamento da autarquia farense, redige este texto com o objectivo de suscitar e estimular a reflexão àqueles que pelo seu tema se possam interessar. Quanto à evolução do ‘fenómeno’ farense, ele sublinha a pertinência do nosso projecto artístico Incito — que tem a C. M. F. e seus protagonistas como espécimes preciosíssimos sob rigorosa observação laboratorial. Qualquer informação que permita corrigir factos referidos, dar deles nova interpretação ou acrescentar outros que eventualmente se contraponham, é sempre bem vinda. Este projecto artístico continuará, conforme inicialmente previsto, seja qual for o resultado eleitoral.

O Saco Azul da Cooltura (ou o moustache eliminado)


Saco Azul começa por se referir às importâncias provenientes de imprevistas receitas casuais, sem classificação oficial, de onde saíam verbas para despesas suplementares, em certos serviços públicos que, deste modo, ultrapassavam a rigidez do contabilístico sistema estatal. A generalização desta prática — e o aumento das fontes menos imprevistas, também inqualificáveis —, bem como o mau uso, transvio e sumiço de valores, fizeram dela crime e carregaram o belo termo aveludado com a sua negativa conotação actual. Porém, o dito Saco, fictício para os que lhe negam a existência, nunca perdeu o sentido mágico de entidade, lugar ou função, em oportuna metamorfose, que bafeja quem o engendra e detém.

No interim, a vigilância democrática, que exige rigor e transparência na aplicação de fundos públicos, incompatibilizou-se indirectamente (por via da obscura origem dos paralelos financiamentos) com o custo exorbitante das campanhas eleitorais. Perante isto, e posto de lado o recurso ao antigo Saco — assim arrumando com este suspeito incómodo assunto —, os políticos viram-se obrigados a um esforço cruel de criatividade. E a mutação teve lugar. Só tal explica que, após por certo pouca reflexão, aos edis logo tenha ocorrido dar novo fim aos fundos, estatais e autárquicos, que à cultura se destinavam. Por que não? Afinal, o que é que não é cultura?! Já sinónimo genérico de entidade surreal, por onde milagrosas verbas brotariam em silêncio para se escoarem secretamente como benesses nos que o controlam, o velho Aladino, que antes inspirara mentes avançadas, assume então, integralmente, nova roupagem, e de níveo coolarinho. Agora, a confusão quanto ao destino (ou fim) de tais recursos, não só não preocupa os que destes mais próximos estão como é por eles, como tesouro, mantida e acarinhada.

Com efeito, das frouxas verbas que se diz serem para o fomento da cultura, no país ou na região, apenas uma ínfima parte é entregue a mãos devidas — de resto, a grande maquia sustenta instituições públicas e remunera a corte de “quadros” politicamente nomeados; estes, já sintoma do culto do sacro Saco que diligentemente os alimenta, por sua vez, administram-na garantindo o mínimo possível de produção artística, zelando de forma a que os parcos frutos, preferencialmente neutras metáforas redundantes, sejam creditados ao mais resplandecente astro político de que dependem.

Basta atentar na profusão de eventos promovidos pelos detentores de cargos públicos: são homenagens póstumas e/ou reconhecimentos de certa carreira; é a atribuição de prémios a ilustres que aceitam; são as comitivas oficiais, incluindo mostras artísticas e beberetes; inaugurações do regime, normalmente edifícios lindos de que se ignora o destino a dar; é o Allgarve do coolturismo; os comícios apadrinhados pelo top dos pop, etc., tudo ‘cultura’. Como outrora com os pintores, que retratam reis, pintam estandartes e decoram festas, não há quem não possa a priori entrar neste Saco actualizado, quem não saia pronto-a-usar para que rebrilhe o poder-que-está.


Cá por Faro, tudo isto é bem sabido do nosso augusto Apolinário, não admira, portanto, que não exista plano de desenvolvimento cultural do Concelho (!), nem critérios públicos e transparentes para a atribuição dos recursos municipais à cultura; tão-pouco espanta a sua recusa em ouvir os activos agentes culturais da cidade — e estão aqui as condições necessárias para que o renovado Saco se continue a poder enfiar. O princípio é simples e eficiente: do orçamento para a cultura, descontado o encargo obrigatório com instituições camarárias, sobrará um quanto que, em ratiocool ‘acções’.
desconhecido, há-de servir para fundações, autores ou associações e, obviamente, de garantia às mais diversas

Como qualquer outra, esta parcela fica à discrição do autarca que a atribui, ritualmente, de acordo apenas com interesses altruístas, estritamente eleitorais. E eis aí que se manifesta a cooltura mais verdadeira; festinhas com vedeta até milhares de muitos euros; certames e respectiva animação; a vénia ao Sr. Ministro dos Allgarves; o Second Life; bandeirolas e outdoors; apoios a coolectividades recreativas, excursionisto-desportistas — enfim, onde haja potenciais votos a angariar. Deste modo, em plena crise, não apenas atira para longe de Faro o dinheiro que se resguardou de atribuir, como deveria, ao desenvolvimento da actividade cultural e artística do Concelho, como, para mais, em consequência de tal desmando, se vêem instituições para isso vocacionadas impedidas de aceder a fundos, nacionais ou internacionais, com que contribuiriam para a economia farense.

Mesmerizado na obsessão de entorpecer o discernimento do comum farense com tanto e tão singular entretém, nada parece perturbar o cool autarca que, airosamente, assim vai sabotando qualquer actividade cultural que acorde o espírito crítico dos munícipes — não vão estes reparar em seus exemplos elementares de vulgar mediocridade.

Acontece que, por não parar com a auto-promoção, após quatro voltas totais ao sol, o edil foi-se tornando presença familiar; com seu porte mediano, fato de escuro, tez morena e, relevo grave, o apêndice capilar orlando um lábio superior, este político cinzentão, tipo velha-guarda, de oratória oca banal, denotando falhas ao imaginário, foi-se revelando aos eleitores. Ora, constatando a mísera imagem que projectou — apesar de tanto ter aberto cordões para artimanhas populares —, e nada tendo de palpável para mostrar a cidadãos, há poucos dias, decerto iluminado por conselho sapiente, eleição já sob as vistas, decidiu-se pelo sumo sacrifício: imolou o próprio moustache.

O bigode, despromovido já dos cânones da moda contemporânea, ainda seria coisa para conferir fiabilidade à patriarca, algo digno, municipal; rapado ficou, quiçá, com ar um pouco mais de cool, porém também o upgrade na figura fornece prova definitiva da sua fibra vertebral. Ao menos, pelo que mostra estar disposto a empenhar, saberemos todos com o que se conta. (*)

Vasco Vidigal
& Artadentro Associação

(*) Este texto destina-se a suscitar e a estimular a reflexão sobre o tema àqueles que por ele se possam interessar. Não pretende ser exaustivo na apreciação dos efeitos nefastos das já tradicionais políticas de "apoio" à cultura e/ou dos já tradicionais políticos que se apoiam na cooltura, no Algarve e em Portugal. Quanto à evolução do ‘fenómeno’ farense referido, ele sublinha a pertinência do nosso projecto artístico Incito, projecto que tem a C. M. de Faro e os seus protagonistas como espécimes preciosíssimos para uma contínua e rigorosa observação laboratorial. Informação que permita corrigir factos referidos, dar deles nova interpretação ou acrescentar outros, melhores ou piores, será bem vinda. Não podemos prometer que a noção de cooltura não venha a ser aprofundada.


O Factor de Diferenciação



Para uma região que vive na dependência quase exclusiva — e, dir-se-ia, já patológica — da indústria turística, a cultura apenas interessa como factor de diferenciação; aquilo que distingue um destino turístico de outro. Esta perspectiva está tão enraizada nos ‘responsáveis políticos’, que a noção de destino, enquanto lugar onde, por exemplo, se passam uns dias de férias, se confunde com a ideia de destino enquanto algo irrevogável e predeterminado por instâncias superiores; neste caso, fatal futuro dos algarvios e do Algarve.

Esta confusão ‘ideológica’, que durante anos foi medrando e se acomoda nas mentes, sobretudo na dos obcecados por uma visão economicista de desenvolvimento a curto prazo (em que as receitas do turismo não são investidas na diversificação da actividade económica e, muito menos, na qualificação da população local — deixando a região extraordinariamente vulnerável a uma crise no sector), configura uma situação de fechamento que determina a impossibilidade de se tirar partido do nosso vasto potencial ainda inexplorado.

De facto, a cultura é apreciada, quase exclusivamente, na sua dimensão popular/folclórica, complemento balnear e, se não reduzida à condição de espectáculo, é entendida como coisa estática e/ou de museu. É uma visão “turística” de cultura, a que contamina os responsáveis desta área. Mesmo as tendências mais recentes para um certo “turismo cultural”, apontando para a recuperação e preservação do património existente, englobando o monumento e a sua envolvente paisagística, rural ou urbana e, claro está, a “identidade das gentes”, vão no sentido de tudo manter ad aeterno no seu “contexto original”. É uma visão que, se implementada sem mais, tenderá a transformar o Algarve num parque temático e, os algarvios, numa espécie de indígenas de costumes peculiares (mas brandos, claro), encerrados na sua reserva, de preferência ‘como sempre foram’, servindo simpaticamente visitantes como criadagem em hotéis e restaurantes. Na melhor das hipóteses, vivendo disso, coçando ao sol sua barriga.

Contudo, esta perspectiva garridamente monocromática da cultura, é atenuada pela intuição da sua insuficiência como atracção de um turismo cosmopolita, mais culto e endinheirado, já fatigado do subdesenvolvimento e das tragédias terceiro-mundistas, ansiando por segurança, conforto e sofisticação. É aqui, que os responsáveis atentam na existência de uma outra cultura — a artística. No entanto, tão atavicamente submersos no seu universo estritamente pop, metem os pés pela mãos, considerando viável instrumentalizar a criação artística, direccionando-a para fins de animação, sem se aperceberem da natureza oposta dos conceitos. É esta miopia que, não distinguindo arte de entretenimento ou criação de mera exibição, impede um verdadeiro desenvolvimento cultural — no seu sentido mais exigente —, e, consequentemente, desvaloriza o Algarve enquanto sério destino turístico.

Bem podem argumentar com as iniciativas no âmbito da música clássica, ou com a incongruente estratégia dos “eventos grande impacto”. Concentrados no Verão e ineficazes no combate à sazonalidade, são pontuais e de curto alcance; sendo exclusivamente dedicados a turistas, afastam os algarvios; importando obras que dizem atrair visitantes, trazem o que estes já fruíram ou podem fruir nos seus locais de origem. De alguns diz-se mesmo que são ‘artísticos’ mas, na sua maioria, são meras produções de entretenimento de massas; a sua eficácia está na preciosa natureza que ocultam: são eventos instrumentais ao serviço da promoção de políticos e satisfação das clientelas respectivas.

Ainda assim, a moda do “grande impacto”, lançada pelos estrategas do marketing e aplicada com a esperteza dos dirigentes locais, não tem dado bons resultados. Veja-se a utilização de nomes carismáticos (como Picasso, James Turrell ou Bill Viola), na promoção de exposições em que, dos autores evocados, apenas se via uma ou outra obra secundária entre as muitas em exibição, levando os visitantes a sentirem-se defraudados e com pouca vontade de se arriscarem a nova desilusão.

Trata-se de uma estratégia que tende a privilegiar a artificialidade e o efeito de estrondo ou chamariz e que tem levado à descaracterização cultural do Algarve. Em nome do desenvolvimento, não apenas apoia uma indústria que tem trazido a delapidação do património natural, monumental e urbano, como, em vez de promover a sua obediência a um planeamento rigoroso, e de o acompanhar por técnicos incorruptos, a deixa intervir no destino dos assuntos culturais. Assim como não nos pareceria ser sinal de exigência ver um artista plástico, um músico ou actor a ditar o rumo do turismo, também não parece nada saudável que seja a hotelaria a determinar qual o destino da produção cultural/artística. De facto, talvez ainda não saibam, mas o Algarve já está farto deste culturismo.

Pela nossa parte, consideramos do mais elementar bom senso, mesmo no interesse da sustentabilidade da indústria, um investimento planeado, consistente, de médio/longo prazo, no apoio às instituições culturais algarvias, sobretudo aos autores e ao associativismo local, i.e., a quem produz cultura. Haveria então, por uma fracção do custo actual e ao longo de todo o ano, algo genuíno e realmente interessante para oferecer a quem nos visitasse, e também de interesse para a população local. Desta forma, tanto a ERTAlgarve - Entidade Regional de Turismo do Algarve, como as câmaras municipais, teriam em abundância o material necessário à promoção da região, mesmo para lá das suas fronteiras, e até para tirarem os justos dividendos duma política inteligente em benefício de toda a comunidade.


No entanto, embora certos do benefício da nossa perspectiva, temos consciência das dificuldades inerentes a uma alteração do medíocre destino a que as actuais visões e práticas políticas têm votado o Algarve — basta para isso atentar no fenómeno farense.

Com efeito, durante a época natalícia, enquanto em Loulé se distribuíam cabazes de natal às famílias mais carenciadas, em Faro, o nosso presidente dava um show de auto-promoção. Este esplêndido autarca, não tendo pão para necessitados, proporcionou aos farenses, entre várias outras onerosas iniciativas, patinagem sobre gelo (costume marcadamente algarvio, desde tempos imemoriais!) a 2,5 € cada meia hora, sendo que, dessa quantia, num magistral golpe promocional, destinou 50 cêntimos de generosidade à caridade. Animação e entretenimento; o desenvolvimento da cultura vai patinando sem progredir. Naturalmente, do mesmo não se pode queixar este executivo camarário: o claro sucesso da iniciativa — bem patente nas gentes que durante umas semanas lá escorregou anestesiada dos seus problemas reais — não pode deixar de impressionar. Somos inexoravelmente compelidos a apreciar espantados o extraordinário talento do autarca para a “patinagem artística”, a solo ou em pares, com o seu vice da cultura.

Da forma audaz como se lança em frente, equilibrado nas finas lâminas da demagogia e do populismo, deslizando a toda a brida sobre o perigoso gelo do desperdício dos fundos municipais, ou da agilidade com que aplica à cultura do concelho todo um rico repertório de acrobacias, retemos o olhar mesmerizado na votação eleitoral. Eis aí as nauseantes “piruetas” com que defrauda a cultura farense — como quando se diz interessado na opinião dos agentes mais activos, convidando-os para workshops com o propósito de compor plateias, para decidir depois, no secretismo dos gabinetes, o destino a dar aos milhões do QREN. Eis aí, também, os “saltos” do emérito patinador, elementos de grande efeito em qualquer exibição; sobretudo, os “mortais à retaguarda” com que provoca o retrocesso cultural do Concelho ¬— como quando, faltando aos compromissos assumidos, deixa durante mais de um ano os agentes culturais à espera das exactas verbas que desvia para eventos de auto-promoção; ou ainda os tão famosos “saltos lançados”, como recentemente, com o anúncio dum “Museu Municipal de Arte Contemporânea” — curiosamente apenas pronto lá para após as eleições. Enfim, todo um astucioso “trabalho de pés” com que, durante um mandato, sem perder o equilíbrio, tentou iludir agentes culturais e eleitores, com promessas que não tinha, nem nunca teve, qualquer intenção de vir a cumprir.

Contudo, se olharmos com atenção, toda esta “patinagem” é justificada, de uma forma ou doutra, com a imperiosa necessidade de tornar a nossa cidade mais divertida e atractiva, mais “turística” e diferenciada. Os farenses, esses, umas vezes tratados como turistas em sua própria casa, outras, como a tal espécie de índios conservados em “reserva temática”, distraídos com tanto entretenimento — que pagam com o próprio futuro —, são condenados ao triste destino do subdesenvolvimento, não apenas cultural, mas também económico. É caso para nos interrogarmos se o factor de diferenciação que verdadeiramente nos penaliza perante o resto da Europa, não consiste afinal, na pobreza cultural dos políticos que temos e mantemos (*).

Vasco Vidigal
& Artadentro Associação



(*)
Este pequeno texto não pretende ser exaustivo na apreciação dos efeitos nefastos das já tradicionais políticas “turísticas” sobre o desenvolvimento cultural algarvio. Destina-se, apenas, a suscitar e a estimular a reflexão sobre o tema àqueles que por ele se possam interessar. Deixamos aqui patentes, também, as linhas gerais daquilo que, no nosso entender, deveria ser uma relação saudável, e mutuamente benéfica, entre o turismo e a actividade cultural/artística da região. Quanto ao ‘fenómeno’ cultural farense referido, ele sublinha a pertinência do nosso projecto artístico Incito, projecto que tem a C. M. de Faro como espécime preciosíssimo para uma contínua e rigorosa observação laboratorial. Qualquer informação que, eventualmente, permita corrigir factos referidos, ou dar deles outra interpretação, será sempre bem vinda.

A Direcção da Cultura


Em geral, ao associar-se o termo direcção à noção de cultura, o sentido que dele mais interessa aos agentes culturais é o de rumo; o rumo das políticas que condicionam a nossa actividade quotidiana de promoção da produção plástica contemporânea.

A Direcção-Regional de Cultura do Algarve é a única entidade pública de âmbito regional com responsabilidades no fomento cultural; um serviço desconcentrado do Ministério da Cultura. Sendo o ministério responsável pela implementação das políticas nacionais, de acordo com os preceitos do executivo (através da sua operacional Direcção-Geral das Artes), ao sentido de critério deveríamos poder associar o de liderança, por dever de lei, isenta e democrática, na dinamização e desenvolvimento da cultura nacional.

No entanto, para nossa surpresa, quer contactando directamente a DRCAlgarve, quer observando a sua prática e consultando a informação disponível, percebemos atónitos que nada há neste serviço para apoiar e promover as artes plásticas — como de resto pouco há destinado à actividade artística em geral. Fica assim claro que o único sentido que se poderá encontrar na direcção da cultura algarvia é o relativo a endereço. Na rua Francisco Horta, 9, sito em Faro, mora a sede do alinhamento prático com a falta de interesse e de investimento na actividade cultural.

Não restam dúvidas de que o Algarve não conta com uma estrutura que siga atentamente as diversas acções da cultural local — não há nenhuma instituição ágil, aberta às dificuldades dos agentes reais, dotada com os necessários meios, com pessoal qualificado e a autonomia suficiente que permita defender o tecido cultural activo contra o visível desinteresse de Lisboa.

De facto, este serviço, exilado da capital, descentrado realmente dos seus deveres para com a região, é uma espécie de repartição pública à moda antiga: pesada e cataléptica, censora do que ameaça a mediocridade instalada, mas abstraída da actividade cultural. É, de facto, uma espécie de loja representante das entidades colonizadoras de outros tempos, noutros lugares; uma feitoria inútil. Burocrata e conivente com Lisboa, pelo menos implicitamente, contra o interesse algarvio, vive escondido lá no seu beco, encarando o diálogo com os agentes locais, por breve que seja, como enorme maçada — provavelmente por implicar algum trabalho e o seu posterior exame público. Para cúmulo, gasta consigo próprio muito mais do que concede ao tecido cultural que era suposto servir.

Entre a fidelidade à tutela e a incapacidade de assumir um papel relevante em prol da região, esta instituição — lutando desesperadamente pela auto-preservação, fazendo o mínimo para que não se diga que nada faz —, coadjuvada pela proverbial inércia da incompetência municipal, tem no entanto a atribuição de fiscalizar e avaliar (!), a actividade subsidiada pelos parcos apoios estatais. Um dispositivo perfeito, pois, para o estrangulamento de toda a iniciativa cultural, crítica e livre.

Mas o mesmo espírito assombra essa outra dimensão, a DGArtes. Também aí, proliferam os constrangimentos a qualquer desempenho eficaz no apoio ao desenvolvimento da produção artística no todo nacional. Dotada de meios financeiros insuficientes, desamparada pela visão cor-de-rosa dos serviços regionais — portanto, ignorante da realidade algarvia (como de muitas outras) —, serve e serve-se de um dispositivo legal que, enquanto jura respeitar a liberdade artística e aparenta considerar o que está fora dos grandes centros urbanos, abre vasto campo à acção discriminatória e ao favorecimento dos já instalados. É um mecanismo que garante a pura e simples reprodução do sistema.

Como exemplos da operacionalidade deste organismo em prejuízo do Algarve, podemos referir que chegou a considerar Faro, pela sua aritmética regulamentar, como equiparável a Lisboa em desenvolvimento cultural. Ou a invenção “genial” de um sistema de quotas, que visa a “correcção das assimetrias”, mas que às artes plásticas algarvias atribui apenas duas possibilidades de apoio e, ainda assim, paradoxalmente, estas surgem não como mínimo obrigatório (desde que existam projectos) mas como o máximo a não ultrapassar.

Outro caso recente protagonizado por este organismo, paradigmático da falta de consideração pelos agentes culturais independentes, foi o rocambolesco que rodeou a 11ª edição do Festival Internacional de Dança Contemporânea — A Sul. Desde há 14 anos, apresentado, pela associação DeVIR, este festival foi inviabilizado por mero ‘esquecimento’ na cabimentação da prevista verba. Isto apesar de a DGArtes ter já financiado a sua pré-produção — o que, pela ligeireza com que se delapidam os recursos públicos, e os dos que verdadeiramente fazem a cultura deste país, deixa a claro outra flagrante falta de respeito pelos agentes algarvios activos. A DeVIR chegou mesmo a acusar publicamente a DGArtes de negligência, após o que, finalmente, o serviço deu sinal de vida comunicando, com o à-vontade de quem tem a faca e o queijo, que todo o apoio “fica na discricionariedade técnica da Administração” — justificação lapidar do autoritarismo estatal no condicionamento da actividade cultural.

A impunidade desta atitude para com o Algarve, aqui em Faro, só poderia ser relativamente amenizada por alguma acção da autarquia. No mínimo, dela esperava-se a sensibilização das autoridades governamentais na defesa dos seus agentes culturais concretos — pelo menos estaria em coerência com a sua tão propagandeada ambição de se afirmar como capital cultural do Algarve. Contudo, por essa altura, o Sr. Presidente da C.M. de Faro, não tendo ainda completado o desmame do recente glamour allgarvio, afadigava-se em promover a sua imagem por entre o sensual elenco do negócio cinematográfico que dá pelo nome de Second Life — empreendimento comercial (!), ao qual pagou as estadias, as deslocações, a alimentação e o tempo dos farenses a quem, segundo o produtor, foi dada a oportunidade de serem figurantes… como se alguma vez tivessem sido outra coisa durante a longa tragicomédia desta gestão autárquica.

Este assombroso caso seria risível não fora a verba atribuída, que nunca há para financiar algumas das associações culturais sem fins lucrativos do Concelho, a um negócio que visa a mera e natural obtenção de lucro por privados (de que a pobre SIC tem parte com a Utopia Filmes) — legitimando doravante, e para mais, que qualquer empresário reclame iguais direitos no acesso a fundos municipais para financiamento dos seus próprios negócios.

Outro aspecto peculiar do fenómeno, que já começa a ter algo de twilight zone, é o facto de a cidade apoiar, já há uns anos, a Algarve Film Comission — que intermediou a ‘coisa’ — com a justificação de que esta desenvolve a função de atracção de produções cinematográficas e que, portanto, sendo bem sucedida, daí adviria benefício económico para Faro… Mas qual quê! À primeira oportunidade, quando parecia que o apoio da cidade ia ter finalmente algum retorno, eis que o seu edil, com a disponibilidade de quem esbanja o dinheiro alheio, avança e cobre a despesa — colocando em evidência a falta do melhor critério na atribuição dos apoios à actividade ‘cultural’ (agora já num sentido muito genérico). E, no entanto, apesar de o executivo apresentar “a promoção de Faro” como razão de peso para esta tropelia — como se fosse plausível que as vetustas paredes do burgo sobrevivessem na memória do espectador e não o esplendoroso espectáculo de solarengos corpos —, tendo em vista o produto final, o que realmente se realça é a promoção de pernas, nádegas e magníficos seios desnudos, tudo o que, enfim, resume o interesse da película.

Pelo que se pode ir vendo, a cultura regional — ao sabor dos interesses representados pelas estruturas políticas, governamentais e/ou autárquicas — segue a boa velocidade na direcção do hard-core. Não é que o nu, como o retrato ou a paisagem, não seja uma nobre e ilustre fonte de inspiração artística; a questão é que a exploração do erário público para fins comerciais sem que, de facto, nada com isso ganhe a cultura — excepto em redundância e mais do mesmo —, parece estar mais próxima de natureza morta.

Mas nada temam os pessimistas; este panorama, deplorável tanto para a cultura farense como para a mais básica inteligência do cidadão contribuinte, ainda está a tempo de piorar. Basta para isso que, este presidente, incorrigivelmente incapaz de pôr os superiores interesses do Concelho à frente dos político-pessoais, veja a oportunidade de, como no filme, ter uma second life que lhe permita perpetuar a mala arte. (*)

Vasco Vidigal
& Artadentro, Associação


(*)
Este pequeno texto, não pretende ser exaustivo na apreciação das políticas culturais nacionais ou locais, destinando-se apenas, a suscitar a reflexão sobre o tema àqueles que por isso se interessem. No que respeita ao Ministério da Cultura, e aos organismos dele dependentes, é justo referir que, apesar de o ministro estar há pouco no cargo, já se tomaram algumas iniciativas válidas. Será necessário algum tempo para se perceber, e saber qual, a eventual alteração na “direcção” da cultura artística no nosso país. Ficam aqui também patentes, as linhas gerais daquilo que, no nosso entender, deveria ser uma estrutura de âmbito regional dedicada ao desenvolvimento e ao acompanhamento real do tecido cultural algarvio existente — nomeadamente, à actividade artística dinamizada pelo associativismo da região. Quanto ao ‘fenómeno’ cultural farense referido no texto, ele aponta para a pertinência do nosso projecto artístico Incito que tem a C. M. de Faro como “espécime” preciosíssimo para uma futura rigorosa observação laboratorial. Qualquer informação que, eventualmente, permita corrigir os factos referidos é sempre bem vinda.


POORTUGAL



experiências não faltam

Para quem trabalha na área cultural, o que ressalta do fenómeno Allgarvio, é a inequívoca certeza de haver dois países: um, que abrange a região de Lisboa e Porto, onde se concentram as instituições de referência — museus, fundações, galerias, escolas de arte, apoios estatais e, claro está, os artistas; outro, POORTUGAL, o restante país (de onde se emigra para a capital ou ao estrangeiro) e onde o interesse pela acção cultural/artística é negligenciada e/ou desencorajada, todo ele palco apenas da produção autorizada, se ou quando por benesse surge — e que, supostamente, se deve aplaudir com entusiasmo e, agradecendo de forma humilde, pedir por mais com ansiedade.

No Algarve agora, a cada ano, durante a época balnear, as associações culturais, para as quais o estado e as Câmaras Municipais se mostram, por tradição, pobres e indisponíveis, assistem da berma da rua à sumptuosidade posta à disposição da iniciativa do Ministério da Economia e Inovação, vincando a diferença entre um Allgarve de Verão, abastado, e esse outro, mais a bastardo, de Outono/Inverno, o POORTUGAL do costume.

Com efeito, ao reflectirmos sobre o Allgarve, salta ao olhar um denominador comum — a pobreza. É a económica pobreza do país que motiva a iniciativa; é a da falta de consideração pelo Algarve que lhe dá o nome; é a pobreza de espírito, que se propõe trazer a esta região um life-style de duvidosa qualidade; é a mirrada escassez de espírito democrático, que descrimina o associativismo local e promove a ‘sovietização’ cultural na região; e é, finalmente, uma miséria, o que resulta da falta de rigor com o que se gasta em projectos de alcance tão curto como as vistas e, além disso, sem qualquer fruto futuro. Mas é, também, a indigência do espectáculo das vaidades pessoais, mais ou menos carreiristas, dos bacocos protagonismos em gravata, das inclusões e exclusões, das apropriações e das inviabilizações.

De facto, a miséria da abordagem Allgarvia é tão notória, que aquilo que tem de melhor é o modo como realça o astigmatismo oficial sobre as questões culturais. Para quem por isso se interessa verdadeiramente não deixa de ser um momento apoteótico do apocalipse poortuguês; aí, no Allgarve, através da desconsideração implícita, se desvela a efectiva pobreza do tecido cultural local — escondida pela demagogia política, estatal e autárquica —, ao ignorar as instituições existentes ou relegá-las a um papel de, quanto muito, meros amparos laterais (naquele que é o maior atestado de incapacidade, de que há memória, lavrado aos agentes culturais do Algarve); aí, também, se manifesta a miséria do ‘conceito oficial’ que o gerou, ao referir-se a cultura como factor de crescimento, como convém à cartilha economicista, porém, misturando eventos artísticos num programa de entretenimento/promoção turística — e a turistas exclusivamente destinado! —, visando o interesse dos melhor localizados, em vez de a todos acrescentar em humanidade; aí se revela, para mais, outro mau exemplo dado à política local — com a chancela da autoridade governamental e o selo da nobre casa de Serralves —, ao conferir força de referência à recente intuição institucionalizada de que cultura é coisa clean, de bouffet, preferencialmente de curto prazo, pop mix

A costumeira agitação estival, ora enriquecida pelo glamouroso Allgarve — com suas vernissages e os inevitáveis magustos de haute cuisine, agora avant-gardemente miscigenada com a gastronomia tradicional, mais as vínicas degustações, o sport, as stars, as sasha sessions, o dinâmico kitsch-chique de governantes e políticos agitados dentro de leves fatos, atraídos pelo ‘espírito cosmopolita’ —, quase nos distraía de uma ausência altissonante, a do Ministério da Cultura. Os indulgentes pensarão talvez ser um modo, modesto e discreto, de reconhecer que nunca se tratou, afinal e de facto, de cultura… ou que, simplesmente, é mais poor do que se quer fazer passar.
pronto a servir, em ‘clima festivo’ ou ‘convidativo’; aí se confirma, enfim, a existência de uma paupérrima cultura de regime, em que estado e autarquias (detentores únicos dos meios públicos, financeiros e logísticos) têm também a exclusividade de decisão, segundo critérios nada claros e/ou em permanente mutação, sobre quem/o quê deve ser apoiado, impossibilitando, regra geral, quaisquer actividades livres do estigma da subserviência.

Embora compreendendo o melindre da situação (pois não é simpático cortar a onda ao empreendedor Manuel de Pinho), o caso é que, quando se constata que Allgarve tem meios financeiros, públicos, muito superiores aos anualmente dedicados à cultura do Algarve — superiores aos destinados a “Faro, Capital Nacional da Cultura 2005”, negativamente apreciada pela Lisboa que a sabotou — e que, já em 2008, a arte contemporânea — um dos componentes do programa Allgarvio —, não merece um único tostão (!) de apoio, para toda (all) a região, o que se sente é a falta de real interesse do Ministério da Cultura por todos (all) os que quotidianamente operam no terreno. A própria Universidade do Algarve, que forma agora os primeiros alunos em Artes Visuais, encontra-se na iminência de, por falta de condições para potenciar os talentos aí formados, ver todos (all) os seus licenciados compelidos à secular migração, contribuindo assim, involuntariamente e em evidente contra-natura, para a perpetuação do empobrecimento cultural e económico. Será que à gente da região não é outorgada vocação para a criação artística e cultural?

Mas também não se pode ignorar a postura da C. M. de Faro. Em indigência financeira crónica, este município mostrou, pela segunda vez (enquanto negligencia o dever de apoiar os seus agentes culturais), uma sua outra pobre faceta — a do mendicante provincianismo perante a iniciativa do Ministério das Inovações. De facto, a falta de sensibilidade cultural mais a ânsia de a mascarar, a urgência de mostrar trabalho, não havendo vontade de o fazer de forma séria e informada, e a aparente ocasião de protagonismo, fácil e grátis — mais à boleia do prestígio que a Fundação do Porto traz —, levaram o actual executivo camarário a aderir sem piscar olho. Em boa hora, dir-se-ia… E, de facto, negociou, disponibilizou espaços e meios que não cede aos agentes culturais do concelho; comprometeu pessoal autárquico e fundos que diz não poder atribuir às instituições locais; enviou convites para a inauguração e, porém, de súbdito indignada, demarcou-se do evento, numa demonstração cabal da penúria política da actual gestão, afinal, paradigmática representante do Poortugal em que vivemos e da ‘cultura’ que nos servem.(1)

Vasco Vidigal
& Artadentro, Associação


(1)
Este pequeno manifesto pontual não quer ser exaustivo na apreciação do Allgarve, uma vez que, destinando-se a lançar o debate sobre a matriz do evento — cuja terceira edição já foi prometida —, deverá ser complementado pela contribuição dos que se interessam pela vida da cultura, local, nacional e internacional. Também não pretende apreciar a allgarviada do ponto de vista da sua eficácia, enquanto motivo de atração turística ou de melhoria económica da região — área em que sérias dúvidas subsistem, pese embora as triunfantes declarações de Pinho. Mas também não pode ser interpretado como um mero exercício de mal-dizer, vazio de vias alternativas, até porque, pelo que fica dito, fácil é de perceber que basta algum senso crítico para evitar e inverter as actuais práticas, e encontrar uma justa fórmula que torne esta, ou qualquer outra iniciativa, verdadeiramente proveitosa para todo o Algarve, para o país e até para quem a promove — fazendo jus ao sentido que levou a acrescentar o simbólico “l” e concorrendo para apagar o extra “o” do nosso, infelizmente mais extenso e bem mais realista, Poortugal. De facto, de experiências que marcam está já ele cheio.


Segunda-feira, 15 de Março de 2010

PROTESTO








contra a ignorância, a incompetência e as medíocres políticas 'populares' de quem de cultura apenas sabe apoiar a redundância do sistema !

*

[ PROTEST ] - Against the ignorance, the incompetence and the mediocre popular politics, from those who know nothing about culture but to support the redundancy of the system !






De: 24 de Maio às 18h, até 6 de Setembro de 2008. (Horário livre)


A Artadentro, tendo constatado que a estratégia até aqui adoptada na prossecução dos seus objectivos fundadores — divulgação e promoção da produção plástica contemporânea, criação de públicos para esta área, dinamização cultural de Faro e do Algarve —, não proporciona resultados compatíveis com o esforço desenvolvido, opta agora por um novo rumo.

Com efeito, por falta de apoios, a Artadentro vê-se forçada, pela primeira vez em cinco anos de intensa actividade, a cancelar duas das exposições previstas na sua programação para 2008: tanto a mostra dedicada a Javier Núñez Gasco (prevista para 24 de Maio a 12 de Julho), como a mostra da obra gráfica de António Costa Pinheiro (entre 19 de Julho e 6 de Setembro), não se irão realizar, ficando adiadas. Pelo mesmo motivo, somos forçados a cancelar diversas outras iniciativas previstas para o corrente ano, nomeadamente a publicação de uma revista dedicada às Artes Plásticas no Algarve.

Assim, a Artadentro, decidiu alterar a postura “neutra”, que consistia em proporcionar ao público a fruição de obras conceptualmente diversas, passando a propor obras conceptualmente orientadas de acordo com uma lógica de apreciação mais evidentemente critica dos problemas culturais actuais. Esta nova opção — que poderá ser interrompida aquando da possível realização das duas últimas exposições previstas para este ano —, irá estar patente já a partir de 24 de Maio com a apresentação de PROTESTO”, uma tela colocada no exterior do nosso espaço de exposições, explicando ao público (em português e inglês) as razões porque se encontra encerrado, numa proposta artística da autoria de Vasco Vidigal e Ana André, dois dos principais dinamizadores do projecto Artadentro.

Artadentro,
Vasco Vidigal




Seguidores